De tempos em tempos, o mesmo discurso reaparece no mundo da engenharia de software, principalmente em posts do LinkedIn:
“testes são perda de tempo”, “não existe ROI comprovado”, “melhor entregar rápido e corrigir depois”.
Esse tipo de argumento costuma soar moderno, “ágil” ou até pragmático — típico papinho de CEO que acha que sabe de tudo.
Mas, na prática, ele é só um disfarce para falta de maturidade técnica e de negócio.
E antes de entrar em números, custos e exemplos, é importante dizer algo com todas as letras:
Quem não faz testes e ainda cria desculpas rasas para justificar isso é porque não sabe trabalhar com testes e também não entende a real importância deles.
E não saber trabalhar com testes normalmente significa cair em um padrão muito comum: a pessoa não testa no começo, não testa durante o desenvolvimento e deixa tudo para o final.
No final, vira caos: testes mal feitos, os famosos testes “melancia”: verdes por fora e vermelhos por dentro. Isso gera horas de retrabalho, cansaço, pressa, inconsistência e um festival de bugs que poderiam ter sido evitados logo no início.
Além disso, a produtividade de rodar um teste pontual e bem localizado é muito maior do que ficar acessando formulários e preenchendo manualmente para verificar se funciona. Smoke tests são bem-vindos e necessários, mas, no momento do desenvolvimento, é muito útil usar dois tipos de testes: os de unidade e os de interface com ferramentas como o Playwright.
Testar não significa seguir TDD ao pé da letra, planejando os testes antes do código. Você pode construir seus recursos — por exemplo, um serviço de validação — e já criar testes para ir validando cenários válidos e inválidos durante o desenvolvimento, identificando falhas rapidamente.
Essa abordagem demonstra maturidade e disciplina por parte do profissional.
O custo de não testar
Não testar parece eficiente no curto prazo, mas sempre cria problemas no médio e longo prazo — e, quando eles chegam, chegam multiplicados. Há bugs que levam muito tempo para serem identificados e corrigidos, pois muitas vezes estão condicionados a situações específicas.
Quando você não testa, não está economizando tempo: está apenas empurrando problemas para a frente.
E todo problema empurrado para a frente volta maior, mais caro e mais urgente.
Mas alguém pode dizer: “me mostre números reais disso”.
Não é difícil fazer a conta do prejuízo de bugs.
Imagine um problema no checkout de um e-commerce:
- Custo das horas do desenvolvedor para investigar e elaborar a solução.
- Tempo do QA para validar cenários.
- Custo de profissionais que lidam com DevOps, tanto para deploy quanto para rollback.
- Prejuízos financeiros por pagamentos duplicados, incorretos ou falhos.
- Risco de rejeição por parte do cliente, que pode abandonar a plataforma.
- Consumo desnecessário de serviços pagos por requisição, gerando custos adicionais.
Tudo isso por causa de um bug que um único teste poderia ter detectado.
1. Horas desperdiçadas apagando incêndio
Um bug em produção nunca chega sozinho. Ele exige investigação, correção, reimplantação e nova validação — consumindo horas que deveriam estar sendo usadas para evoluir o produto.
Além disso, falhas em produção afetam diretamente o roadmap: funcionalidades com data marcada atrasam, compromissos são revistos e, em alguns casos, até projeções financeiras precisam ser ajustadas.
Isso desgasta o time, prejudica a confiança interna e reduz a credibilidade da área técnica.
2. Rollbacks e retrabalho constante
Sem testes, cada deploy vira uma aposta. Quando algo crítico falha, não há muito o que fazer além de voltar a versão anterior, desfazer trabalho recente e reorganizar atividades já planejadas.
O resultado é um ciclo de retrabalho que consome energia e impede o time de avançar. Em vez de construir novas funcionalidades, a equipe fica presa corrigindo as consequências da falta de validação adequada.
3. Suporte sobrecarregado e clientes irritados
Sem testes, o suporte vira o muro onde todos os problemas batem.
Tickets aumentam, reclamações se acumulam e a confiança do usuário começa a evaporar. A sensação de “o sistema sempre quebra” passa a dominar a percepção do produto.
4. Perda de confiança por parte dos clientes
Clientes podem tolerar bugs ocasionais — ninguém exige perfeição.
Mas, quando falhas se tornam rotina, a confiança acaba.
E, quando a confiança acaba, o churn sobe, contratos são cancelados e a reputação se desgasta.
5. Queda de reputação em app stores
Para produtos mobile, a consequência é ainda mais cruel:
um bug crítico derruba notas, notas derrubam ranking, ranking derruba downloads — e downloads derrubam receita.
Um teste que teria custado minutos se transforma em prejuízo de meses.
O custo de testar
Sim, testes têm custo.
Mas é um custo controlado, previsível e infinitamente menor do que lidar com bugs em produção.
1. Tempo de desenvolvimento
Escrever testes exige preparação, criação de cenários e estruturação.
No entanto, esse investimento reduz drasticamente o retrabalho — que é muito mais caro.
2. Manutenção dos testes
Testes quebram. E está tudo bem.
Um teste quebrado é um alerta de que algo mudou — e de que você ainda tem controle sobre a mudança.
Corrigir testes é muito mais barato do que corrigir bugs depois que o estrago foi feito.
3. Cultura e disciplina
O maior custo não é técnico — é cultural.
Equipes que nunca testaram precisam aprender disciplina, organização e previsibilidade.
Mas toda equipe que atravessa essa barreira se torna mais eficiente e saudável.
Comparando os dois caminhos
Custo de testar
- Tempo de implementação
- Manutenção
- Pipelines mais mais longos
- Disciplina
Custo de não testar
- Retrabalho infinito
- Horas em incidentes
- Rollbacks constantes
- Roadmap atrasado
- Suporte sobrecarregado
- Insatisfação do cliente
- Perda de contratos
- Notas baixas em app stores
- Quebra de reputação
- Stress e burnout do time
A conclusão é óbvia:
Testar tem custos.
Não testar tem consequências — e elas são muito mais caras.
Vantagens
- Deploys deixam de ser eventos traumáticos
- Refatorações passam a ser seguras
- Bugs diminuem
- Retrabalho diminui
- Suporte respira
- Cliente percebe qualidade
- O time fica mais saudável
- O roadmap se torna previsível
Conclusão
Escrever testes exige tempo, disciplina e maturidade.
Ignorar testes cobra um preço muito maior — em dinheiro, desgaste e reputação.
Testes não são burocracia.
Testes são investimento.
Testes compram estabilidade.
E estabilidade compra velocidade.



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